A FORÇA DE UM APELIDO

A força de um apelido
[Daniel Munduruku]

O menino chegou à escola da cidade grande um pouco desajeitado. Vinha da zona rural e trazia em seu rosto a marca de sua gente da floresta. Vestia um uniforme que parecia um pouco apertado para seu corpanzil protuberante. Não estava nada confortável naquela roupa com a qual parecia não ter nenhuma intimidade.
A escola era para ele algo estranho que ele tinha ouvido apenas falar. Havia sido obrigado a ir e ainda que argumentasse que não queria estudar, seus pais o convenceram dizendo que seria bom para ele. Acreditou nas palavras dos pais e se deixou levar pela certeza de dias melhores. Dias melhores virão, ele ouvira dizer muitas vezes. Ele duvidava disso. Teria que enfrentar o desafio de ir para a escola ainda que preferisse ficar em sua aldeia correndo, brincando, subindo nas árvores, coletando frutas ou plantando mandioca. O que ele poderia aprender ali?
Os dias que antecederam o primeiro dia de aula foram os mais difíceis. Sobre seu corpo colocaram uma roupa que lhe apertavam os músculos, os pés, o tórax. Quase não conseguia respirar quando lhe vestiram o uniforme. Ou melhor, “a farda”, como se dizia naquela época.
Finalmente o primeiro dia de aula chegou. Arrumou seu material escolar em uma mochila, o lanche preparado carinhosamente pela mãe e colocou-se à caminho. Tudo lhe parecia estranho demais, novo demais, esquisito demais. Tudo era sofrido demais.
Quando chegou à frente da escola parou. Olhou para as grandes paredes que a formavam e ficou desolado imaginando o que iria acontecer em seguida. Pensou em voltar atrás, mas lembrou das palavras de seu pai que lhe diziam que um guerreiro nunca desiste. Seguiu adiante acompanhado de sua mãe que não o deixava um instante sequer. Seus pés doíam por causa do tênis que lhe obrigaram a usar e que era um número menor para o tamanho de seus pés. Aguentou com dignidade o desconforto. Quando chegou ao portão que o separava da vida da aldeia e a escola estancou buscando os olhos atentos de sua mãe. Não conseguiu pensar em nada. Apenas entrou.
Dentro do prédio da escola avistou um grupo de meninos com idade aproximada da sua. Sentiu algum ânimo naquele momento. Viu que tinham rostos parecidos com o seu, cabelos lisos, corpo bronzeado. Ensaiou um sorriso, mas logo ficou desanimado porque um daqueles meninos gritou logo que o avistou:
- Gente, olha o índio que chegou em nossa escola. Olha o índio que veio estudar aqui.
Ouviu explodir muitas risadas nascidas das palavras do colega. Ficou intrigado. Olhou para todos os lados, para cima e para baixo procurando o que o garoto chamara de “índio”. Em sua inocência pensou tratar-se de um passarinho de uma espécie que não conhecia. Diante da aparente ignorância do recém-chegado o grupo gargalhou ainda mais constrangendo o novato que, finalmente, entendeu que estavam falando de sua pessoa. Pensou mais uma vez que eles o estavam recebendo de maneira gentil e que esta palavra – que ele nunca ouvira antes – era uma forma carinhosa de tratar o estreante. Infelizmente não era.
Dias depois descobriu que estava sendo chamado por um apelido. 
– Apelidos são formas pouco gentis de tratar as pessoas, meu filho – disse-lhe a mãe um tanto preocupada.
- O que significa esta palavra, pai? – perguntou um dia para seu genitor enquanto pescavam no igarapé. O pai o observou sem pressa.
- Índio, meu filho, é como as pessoas da cidade se referem aos nossos povos antigos. É uma palavra que diz o que eles pensam de nós e eles pensam coisas terríveis. Dizem coisas que enfraquecem nosso espírito. Eles não sabem quem somos e por isso nos deram um apelido que nos humilha e maltrata. Posso dizer a você que eles não sabem, mas nós sabemos quem somos e isto é tudo o que precisamos para vivermos bem a nossa vida.
Depois destas palavras o pai abraçou o menino e sussurrou em seu ouvido:
- Somos fortes, somos guerreiros. Somos de um povo antigo e valente. Somos água, somos gente. Somos terra. Somos sementes.

O menino fechou os olhos agradecidos, mas sabia que muito ainda iria acontecer.

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